quarta-feira, 11 de abril de 2018

Pecados Maiores - Estudo do caso de Davi e Bate-Seba. - Pergunta 83 do Breve Catecismo

Pregado em 1 de Abril de 2018 na Capela Missional / Porto Alegre

Exposições no Breve Catecismo de Westminster

PERGUNTA 83. São igualmente odiosas todas as transgressões da lei?
R. Alguns pecados em si mesmos, e em razão de circunstâncias agravantes, são mais odiosos à vista de Deus do que outros.



               UMA HISTÓRIA DE APROFUNDAMENTO NO PECADO
1 Samuel 11.1 – 27 - Decorrido um ano, no tempo em que os reis costumam sair para a guerra, enviou Davi a Joabe, e seus servos, com ele, e a todo o Israel, que destruíram os filhos de Amom e sitiaram Rabá; porém Davi ficou em Jerusalém. 2 Uma tarde, levantou-se Davi do seu leito e andava passeando no terraço da casa real; daí viu uma mulher que estava tomando banho; era ela mui formosa. 3 Davi mandou perguntar quem era. Disseram-lhe: É Bate-Seba, filha de Eliã e mulher de Urias, o heteu. 4 Então, enviou Davi mensageiros que a trouxessem; ela veio, e ele se deitou com ela. Tendo-se ela purificado da sua imundícia, voltou para sua casa. 5 A mulher concebeu e mandou dizer a Davi: Estou grávida. 6 Então, enviou Davi mensageiros a Joabe, dizendo: Manda-me Urias, o heteu. Joabe enviou Urias a Davi. 7 Vindo, pois, Urias a Davi, perguntou este como passava Joabe, como se achava o povo e como ia a guerra. 8 Depois, disse Davi a Urias: Desce a tua casa e lava os pés. Saindo Urias da casa real, logo se lhe seguiu um presente do rei. 9 Porém Urias se deitou à porta da casa real, com todos os servos do seu senhor, e não desceu para sua casa. 10 Fizeram-no saber a Davi, dizendo: Urias não desceu a sua casa. Então, disse Davi a Urias: Não vens tu de uma jornada? Por que não desceste a tua casa? 11 Respondeu Urias a Davi: A arca, Israel e Judá ficam em tendas; Joabe, meu senhor, e os servos de meu senhor estão acampados ao ar livre; e hei de eu entrar na minha casa, para comer e beber e para me deitar com minha mulher? Tão certo como tu vives e como vive a tua alma, não farei tal coisa. 12 Então, disse Davi a Urias: Demora-te aqui ainda hoje, e amanhã te despedirei. Urias, pois, ficou em Jerusalém aquele dia e o seguinte. 13 Davi o convidou, e comeu e bebeu diante dele, e o embebedou; à tarde, saiu Urias a deitar-se na sua cama, com os servos de seu senhor; porém não desceu a sua casa. 14 Pela manhã, Davi escreveu uma carta a Joabe e lha mandou por mão de Urias. 15 Escreveu na carta, dizendo: Ponde Urias na frente da maior força da peleja; e deixai-o sozinho, para que seja ferido e morra. 16 Tendo, pois, Joabe sitiado a cidade, pôs a Urias no lugar onde sabia que estavam homens valentes. 17 Saindo os homens da cidade e pelejando com Joabe, caíram alguns do povo, dos servos de Davi; e morreu também Urias, o heteu. 18 Então, Joabe enviou notícias e fez saber a Davi tudo o que se dera na batalha. 19 Deu ordem ao mensageiro, dizendo: Se, ao terminares de contar ao rei os acontecimentos desta peleja, 20 suceder que ele se encolerize e te diga: Por que vos chegastes assim perto da cidade a pelejar? Não sabíeis vós que haviam de atirar do muro? 21 Quem feriu a Abimeleque, filho de Jerubesete? Não lançou uma mulher sobre ele, do muro, um pedaço de mó corredora, de que morreu em Tebes? Por que vos chegastes ao muro? Então, dirás: Também morreu teu servo Urias, o heteu. 22 Partiu o mensageiro e, chegando, fez saber a Davi tudo o que Joabe lhe havia mandado dizer. 23 Disse o mensageiro a Davi: Na verdade, aqueles homens foram mais poderosos do que nós e saíram contra nós ao campo; porém nós fomos contra eles, até à entrada da porta. 24 Então, os flecheiros, do alto do muro, atiraram contra os teus servos, e morreram alguns dos servos do rei; e também morreu o teu servo Urias, o heteu. 25 Disse Davi ao mensageiro: Assim dirás a Joabe: Não pareça isto mal aos teus olhos, pois a espada devora tanto este como aquele; intensifica a tua peleja contra a cidade e derrota-a; e, tu, anima a Joabe. 26 Ouvindo, pois, a mulher de Urias que seu marido era morto, ela o pranteou. 27 Passado o luto, Davi mandou buscá-la e a trouxe para o palácio; tornou-se ela sua mulher e lhe deu à luz um filho. Porém isto que Davi fizera foi mau aos olhos do SENHOR.

Pecados são pecados, mas há pecados mais graves do que outros.
Não existe pecado sem importância, pois o menor pecado é contra a santidade de Deus. O menor pecado é uma ofensa a Deus, por que a santidade de Deus é infinita. Ele é absolutamente puro. Por isso não se pode amar, nem se apagar a um pequeno pecado. Todo pecado é pecado.
PERGUNTA 84. Que merece cada pecado?
R. Cada pecado merece a ira e a maldição de Deus, tanto nesta vida como na vindoura.
Mas alguns pecados são em si mesmos mais malignos do que outros em razão de circunstâncias e fatores agravantes.  O pecado de assassinato é pior do que o pecado do roubo; o pecado do roubo é pior do que o da preguiça. O pecado do adultério é pior do que o da piada suja.
Vejamos o que a Bíblia no diz sobre este assunto: Lc 12.10 -  Todo aquele que proferir uma palavra contra o Filho do Homem, isso lhe será perdoado; mas, para o que blasfemar contra o Espírito Santo, não haverá perdão.
João 19.11 - Respondeu Jesus: Nenhuma  autoridade terias sobre mim, se de cima não te fosse dada; por isso, quem me entregou a ti maior pecado tem.
1 João 5. 16 Se alguém vir a seu irmão cometer pecado não para morte, pedirá, e Deus lhe dará vida, aos que não pecam para morte. Há pecado para morte, e por esse não digo que rogue. 17 Toda injustiça é pecado, e há pecado não para morte.
Se todos os pecados fossem iguais, se não houvesse diferenças entre a gravidade de certos tipos de pecados então cobiçar e adulterar seria a mesma coisa – logo já que cobiçamos e cobiçar é a mesma coisa que consumar o ato, vamos consumar. Já que pensamentos impuros é pecado, passar a mão, por exemplo é igual a consumar um ato, então  porque não?
Mas não é isso que a Bíblia ensina. O ensino bíblico é que não nos afundemos no pecado. Um exemplo disso é o capítulo esta narrativa sobre os acontecimentos entre Davi, Bate-Seba e seu marido Urias. Esta narrativa é descreve alguém que aprofundou sua vida de pecado.
Vejamos como Davi se aprofundou e afundou no caminho do pecado.

O PRIMEIRO DEGRAU – DA DESOCUPAÇÃO AO ADULTÉRIO. –VS 1-4
1 – Davi comete o pecado da irresponsabilidade. Ele não vaia guerra como um rei deveria ir. V.1
Como o exército de Israel na época já era forte, e já havia vencido várias batalhas, provavelmente nem fosse necessária. Bem provável, ele tinha o direito de permanecer em Jerusalém. Mas o texto é enfático ao dizer que “era a época em que os reis saiam para a guerra, mas Davi enviou Joabe...”
A sensação de segurança e autossuficiência, pode ser causa de grandes fracassos e pecados. Foi o caso de Davi.
2 – Davi comete o pecado da preguiça – v. 2
Veja que o texto diz que a tarde Davi estava na cama. Ele não estava ocupado naquilo que era seu dever, os negócios do governo. Tem um ditado que diz que a “preguiça é mãe de todos os vícios”. Matthew Henry diz que “a cama da preguiça com frequência resulta na cama da impureza.”
A maioria daqueles que se viciam em jogos, em televisão, em bebidas, em pornografia, começam pela preguiça. 
3 – Davi quebra o décimo mandamento. Ele cobiça a mulher do seu próximo. v. 3
Os olhos de Davi seguiu o que havia no coração. Se é verdade que o que os olhos não vê o coração não sente, é verdade que tudo começa com os olhos. Jesus disse que os olhos são as Lâmpadas do corpo, se teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso.
A cobiça, vimos antes, é o pecado mais pessoal.
4 – Davi quebra o sétimo mandamento – Ele comete adultério. V.4
Mais do que cobiçar, ele comete o adultério na prática. Não ficou apenas no desejo.
 Desejar é pecado, mas praticar o adultério carnalmente é o aprofundamento na lama do pecado.
Davi cometeu o pecado de adultério, grande ofensa ao Senhor. O adultério é um pecado grave, pois peca contra a santidade do matrimônio. 

O SEGUNDO DEGRAU – DA DISSIMULAÇÃO À TRAIÇÃO. Vs 6-13
1 – Davi elabora um plano maligno no coração. V.6
Davi de forma extremamente maligna, traça um plano para camuflar, encobrir seu pecado. Ele maquinou este pleno. Ele premeditou uma saída.
2 – Davi tenta enganar Urias. VS 7-8
A dissimulação de Davi foi impressionante. Ele tenta induzir Urias a fica um pouco em casa e dormir com sua mulher conscientemente e assim de uma vez por todas ele ficaria livre do problema.
3 – Davi usa de malícia sórdida contra Urias. 9-13
A fidelidade de Urias é digna de nota. Tanto a Deus como aos soldados. Davi então o embebeda. Mas mesmo com toda sordidez, o plano de Davi não funciona, porque Urias, mesmo bêbado, tem mais consciência do que Davi.

O TERCEIRO DEGRAU – DA INTENÇÃO DE MATAR AO ASSASSINATO. VS 14- 17
1 – Davi planeja a morte de Urias. VS 14-15
A decadência de Davi e seu aprofundamento no pecado aumenta a cada passo na narrativa. Ele agora ele envolve um terceiro que é seu general, para que Urias seja colocado em um lugar estratégico na batalha para que morra.
2 – Davi consegue que Urias seja morto. V.16-17
Sua imoralidade, sua imoralidade, sua chafurdação na lama do pecado é incrível. O que começa com uma autossuficiência, evolui para o pecado da ociosidade preguiçosa, daí para um olhar impuro, para a cobiça, para o adultério, para a traição, engano, um complô maligno e finalmente para o assassinato.

O QUARTO DEGRAU – DA PREMEDITAÇÃO NA INTENÇÃO À OBSTINAÇÃO IRREDUTÍVEL NO PECADO. VS 18 - 27
Davi em cada passo pecou contra o Senhor. Do início ao fim ele pecou contra o Senhor.
Davi depois da morte de Urias, toma a Bate-Seba como sua mulher. Isso, imediatamente. Em nenhum momento ele se arrepende. Em nenhum momento, ele tem consciência de seu pecado. Isso ofendeu ao Senhor.
O pecado ofende ao Senhor. Somente quando Natã, o profeta vem com a Palavra é que ele cai em si. No famoso Salmo de arrependimento – 51 – ele confessa que seu pecado foi contra o Senhor.
O exemplo de Davi não deve servir de exemplo para pecarmos. 
Conta-se que Teodósio, o grande Imperador de Roma no final do Século IV, foi impedido por Ambrósio de entrar no culto por ter mandando matar alguns conspiradores. O Imperador então teria dito, “Davi também pecou’. Ambrósio respondeu, “Pois se imita Davi em seu pecado, imita também ele no arrependimento”.
Não nos aprofundemos, portanto, no pecado. Cesse seu pecado enquanto ele ainda não é mais grave. Cesse seu pecado enquanto você ainda está sendo atraído para a lama, enquanto ainda não chafurdou na lama.
Sabendo que não estamos aqui para te condenar, mas para mostrar que todo pecado pode ser perdoado por Jesus. Jesus morreu na cruz para perdoar pecadores ao substituí-los na cruz. Ele pagou o preço que era do pecador. Ele nos representou diante de Deus. Ele é a solução tanto nos dando poder para vencer o pecado, como para perdoar nosso pecado se já o cometemos.


segunda-feira, 9 de abril de 2018

A função da Lei; Santificação e não salvação. Pergunta 82 do Breve Catecismo de Westminster

Pregado em 25 de março de 2018 na Capela Missional / Porto Alegre.

Exposições no Breve Catecismo de Westminster

PERGUNTA 82. Será alguém capaz de guardar perfeitamente os mandamentos de Deus?
R. Nenhum mero ser humano, desde a queda de Adão, é capaz, nesta vida, de guardar perfeitamente os mandamentos de Deus, mas diariamente os quebra por pensamentos, palavras e obras.





A IMPOSSIBILIDADE DA LEI QUANTO A SALVAÇÃO - Gálatas 2.16-21
16 sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei, e sim mediante a fé em Cristo Jesus, também temos crido em Cristo Jesus, para que fôssemos justificados pela fé em Cristo e não por obras da lei, pois, por obras da lei, ninguém será justificado.17 Mas se, procurando ser justificados em Cristo, fomos nós mesmos também achados pecadores, dar-se-á o caso de ser Cristo ministro do pecado? Certo que não! 18 Porque, se torno a edificar aquilo que destruí, a mim mesmo me constituo transgressor. 19 Porque eu, mediante a própria lei, morri para a lei, a fim de viver para Deus. Estou crucificado com Cristo; 20 logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim. 21 Não anulo a graça de Deus; pois, se a justiça é mediante a lei, segue-se que morreu Cristo em vão.

É impossível ser salvo pela Lei, porque ninguém consegue obedecê-la, por isso, necessitamos de um mediador.

Depois de aprendermos sobre os Dez Mandamentos, chegamos a uma conclusão: é impossível obedecê-los, logo é impossível sermos salvos se pensarmos nisso tentando obedecer aos mandamentos.
Se não podemos guardar a Lei, e a quebra da Lei nos condena, então precisamos de outro meio de salvação e de um salvador.
A revelação da Lei no monte Sinais, foi dada a um povo que vivia numa cultura pecaminosa e idólatra. A revelação da Lei os denunciou, e demonstrou toda a iniquidade em que viviam. Ele não poderiam ser povo de Deus e viver daquela maneira.
A Lei foi dada para reprimir o pecado. A Lei revela o pecado.
Não era a intenção da Lei destruir o povo, mas salvar o povo da destruição por causa de seus pecados.
Mas a obediência da Lei não tinha a intenção de justificar o povo, por isso foi dado cerimônias, que tipificavam a salvação por meio de um mediador. A Lei era perfeita e ninguém seria perfeito para cumprir uma Lei perfeita.  A Lei como lei não tinha provisão expiatória. Um cordeiro deveria ser morto.
Não podendo ser salvo pela lei, só se pode ser condenado por ela.
Rm 3.9-10 - Que se conclui? Temos nós qualquer vantagem? Não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado; 10 como está escrito: Não há justo, nem um sequer.
Esta é a conclusão que chegamos ao olhar para o Monte Sinai. Esta é a conclusão que chegamos quando olhamos para os Dez Mandamentos. É impossível.
Existem duas maneiras que os evangélicos hoje veem a Lei.O Legalismo e o Antinomismo. O legalismo é o mais comum, e é a tentativa de salvação pelo mérito próprio ao cumprir alguns mandamentos da Lei. O Antinomismo é a tentativa de viver sem a lei, mas criando padrões morais para também pelo mérito alcançar a salvação. Na verdade, são duas formas de legalismo.
O legalismo nos manda fazer coisas para agradar a Deus.
Para conquistar o favor de Deus. O legalismo nos manda guardar a Lei para sermos aceitos por Deus.
A  graça nos liberta e nos mostra o caminho da liberdade. A liberdade do evangelho. A liberdade de servirmos a Deus por amor e gratidão por tudo o que ele fez por nossa salvação.
I – A LEI NÃO JUSTIFICA O PECADOR v.16
Aqui está o sentido da fé em Cristo, nos justificar. Ele cumpriu a Lei em nosso lugar, logo a Lei não pode mais nos condenar. Também não devemos usar a Lei como fundamento da nossa salvação. Quem pensa que é salvo porque obedece os mandamentos está negando a obra de Cristo. A mensagem de Gálatas é tudo o que legalismo não quer ouvir.
O legalismo é a salvação por meio de obras meritórias.
A graça é a salvação unicamente pela fé nos méritos de Cristo.
A carta de Gálatas é uma mensagem que faz o marco divisório. Que inaugura a diferença entre judaísmo e cristianismo.
A liberdade chegou por meio de Cristo. O medo de não ser aceito por Deus chegou ao fim.
O medo da lei chegou ao fim.  A condenação da Lei chegou ao fim.
Esta carta anuncia que  a Lei não poderia salvar, mas somente condenar. Quem quebrasse a Lei deveria ser condenado. Mas quem cumprisse a lei também seria condenado se não fosse a graça. Somente a graça de Cristo é o verdadeiro evangelho. A graça é a verdadeira mensagem do Evangelho. Pois a graça é libertação em todos os sentidos.
Libertação do poder do pecado. Libertação da condenação do pecado.
Libertação da condenação de Deus. Libertação da ira de Deus.
Libertação do medo de se aproximar de Deus.
Quem prega o evangelho do mérito, não está pregando o evangelho.
Quem prega o evangelho sem a graça, não está pregando o evangelho.
O evangelho é a palavra de salvação porque diz que o salvador veio ao mundo.
Que o salvador chegou para salvar. Que a morte de Cristo levou nossa condenação. Que a morte de Cristo levou nossa culpa.
Que a morte de Cristo é suficiente para Deus nos declarar justificados. Nos declarar justos. Não somos justos, mas Deus coloca em nós a justiça de Cristo. Não somos bons, mas Deus declara sobre nós a bondade de Cristo. Não somos santos, mas Deus coloca sobre nós a santidade de Cristo.
Justificação não é mérito nosso – mas é a justiça de Cristo – mérito de Cristo. O Evangelho prega o mérito de Cristo. O Evangelho prega a salvação do pecador pelos méritos de Cristo. É por meio de Cristo que Deus nos aceita.
II  – O EVANGELHO É CRISTO NOS LIBERTANDO DA CONDENAÇÃO DA LEI. V. 17 -21
O Judaismo antigo e o legalismo moderno, procuram restaurar a salvação pelas obras e pelos méritos. Alguns dizem que a salvação somente pela fé, nos deixa livres para pecar. Isto é fazer de Cristo ministro do pecado como o texto afirma. Mas quem está em Cristo está morto para a lei, porque Cristo morreu debaixo da Lei e sofreu todo o juízo da Lei em nosso lugar.
A Lei nos procurava para condenar. A lei nos matava, porque quem quebra a lei merece a condenação. Cristo veio e cumpriu a Lei em nosso lugar. Ele não quebrou a Lei, mas morreu como se tivesse quebrado a lei.
Ele morreu como um transgressor da lei. Porque? Porque ele assumiu o nosso lugar. O pecador deveria morrer por ser o transgressor da lei. Mas Jesus morreu no lugar dele.
Agora a Lei não pode mais condenar o pecador que está em Cristo.
Porque a Lei já matou a Cristo, agora o pecador está livre da condenação da Lei.
A condenação já foi cumprida. Agora o pecador está livre da condenação e pode viver sem medo da condenação. Esta é a alegria da salvação.  Agora a Lei é aliada e não mais inimiga.
Agora cumprir a Lei é prazer e não um jugo.
Quando descobrimos que não podemos cumprir a Lei e que a Lei vai nos condenar, corremos para o Evangelho.
A Lei nos leva ao evangelho. Ela nos condena para que corramos para a solução. Com o Evangelho descobrimos que Deus mesmo proporcionou  a solução que é Jesus Cristo. Mas veja que isto já estava incluído na própria Lei na Antiga Aliança – os sacrifícios e o culto apontavam para o salvador.  Jesus oferece a obediência perfeita à Lei.  Ele nos representa diante de Deus. Jesus é aquele que obedeceu a Lei por nós. Não podemos ser salvos por nossa própria obediência. Mas tudo o que Jesus fez conta pra todos os que confiam nele.
Lutero: “ O Cristo que é entendido pela fé e que vive no coração é a verdadeira justiça cristã, por cuja causa Deus nos considera justos e nos dá a vida eterna.”
Como não conseguimos cumprir a Lei precisamos de um mediador, caso contrário enfrentaremos a justiça de Deus completamente sós e dependendo de nossa própria justiça.
Já que a Lei no não nos salva, qual é sua função para nós? A Lei nos ensina como viver uma vida que Deus quer de nós. Ela nos ensina a viver.
Thomas Watson: Mesmo que o cristão não esteja sob o poder condenatório da Lei, ainda está sob o seu poder ordenador.
Cristo nos libertou do poder condenatório da Lei, mas agora nos ensina seu poder santificador. Ele nos ensina a obedecer à vontade de Deus, revelada na Lei. Ele explica a Lei de Deus e a coloca em nosso coração.
Samuel Bolton: A Lei nos envia ao Evangelho para que sejamos justificados, e o Evangelho nos envia de volta à Lei para sermos santificados. A Lei nos envia ao evangelho para nossa justificação, o Evangelho nos devolve à Lei para nossa santificação.
A lei nos leva a Cristo para nos mostrar a graça que nos salva. Cristo nos mostra a Lei para que nossa vida seja moldada segundo a vontade de Deus. Não guardamos a Lei para sermos salvos. É pela graça que somos salvos. Mas guardamos a Lei porque somos salvos. Fomos salvos para glorificar a Deus e glorificamos a Deus guardando seus mandamentos. Guardamos os mandamentos com a leveza da graça. Guardamos os mandamentos sem medo da condenação. Cristo nos livrou deste medo.
Não podemos viver uma vida verdadeira cristã sem que tenhamos sido confrontados pela Lei quanto ao nosso pecado.
Não podemos viver uma vida verdadeiramente cristã, sem a certeza de que fomos aceitos por Deus pelos méritos de Cristo na cruz.
Não podemos viver uma vida verdadeiramente cristã, sem que nossa vida seja moldada pela Lei de Deus.

terça-feira, 27 de março de 2018

Os Males da Cobiça - O Décimo Mandamento

Pregado em 18 de março de 2018 - Na Capela Missional/Porto Alegre

EXPOSIÇÕES NO BREVE CATECISMO DE WESTMINSTER
PERGUNTA 79. Qual é o décimo mandamento?
R. O décimo mandamento é :  Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo. Ex 20.17



                                              OS MALES DA COBIÇA

A Cobiça, fruto da inveja é o pecado mais íntimo e revelador de nossa natureza caída.

A cobiça é fruto da inveja que na tradição cristã medieval era o segundo pecado capital. Os pecados capitais: Orgulho, Inveja, Raiva, Preguiça, Avareza, Glutonaria, Luxúria.
A Inveja é o desejo de ter o que o outro tem. A cobiça é o desejo de ter o que é do outro.
Não é pecado desejar ter o que não temos, mas é pecado desejar o que não temos porque o outro tem e nós não, porque isto é inveja. O mandamento torna explicito a cobiça que é deseja  que o outro tem. Desejar o que é do outro.
Gl 5.26 - Não nos deixemos possuir de vanglória, provocando uns aos outros, tendo inveja uns dos outros.
Quando falamos sobre os mandamentos, não estamos falando em legalismo. O legalismo se baseia nas conquistas espirituais pelo desempenho e méritos humanos e pessoais. O legalista impõe aos outros aquilo que  ele deveria praticar. O legalista quando confrontado pelo pecado e suas misérias, ele procura em si mesmo virtudes que o tornem aceitáveis diante de Deus.
Outro fato é moralismo, que é a busca das virtudes sem as pressuposições do Evangelho e da graça. Onde há legalismo e moralismo, não há graça. Somente a centralidade do Evangelho torna as pessoas mais humildes, à medida que são lembradas de que não são aceitas por Deus, com base no que fazem, mas pelo que Deus mesmo fez em Cristo.
O Décimo Mandamento nos leva ao desespero de nós mesmos e de nossos recursos. Por isso, a saída é a Cruz de Cristo.
Martinho Lutero: “O Décimo Mandamento pretende dar o último golpe naqueles que pensam estar de pé, depois dos nove mandamentos precedentes.”
I - O MAIS ÍNTIMO DOS PECADOS
PERGUNTA 80. Que exige o décimo mandamento?
R. O décimo mandamento exige o pleno contentamento com a nossa condição, bem como disposição caridosa para com o nosso próximo e tudo o que lhe pertence.
1Tm 6.6-10 - De fato, grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento. 7 Porque nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele. 8 Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes. 9 Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. 10 Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores.
Este pecado é o mais revelador de todos, porque revela o nosso coração. A proibição da cobiça como mandamento, leva a Lei e os mandamentos até a vida interior, ao mais intimo do ser humano. A Lei civil não pode coibir, nem punir a cobiça, a não ser que se torne ato concreto como o roubo. Ninguém vê a cobiça. Ninguém é testemunha dela a não ser a pessoa que está cobiçando.  A cobiça pertence à vida interior, ao coração, à mente.
A quebra deste mandamento revela as coisas que estão abaixo da superfície, nos lugares secretos de nossas vidas.
Deus proíbe a cobiça, este pecado tão particular, porque ele nos conhece.
A origem da cobiça é a insatisfação ou descontentamento. Este é o pecado que dá origem aos outros todos, por isso, ele encerra os Dez Mandamento.  A pessoa faz para si ídolos, porque não tem sua satisfação em Deus. A pessoa produz o culto à sua maneira, porque não se contenta com o culto que Deus prescreve. A Pessoa profana o nome de Deus, porque não se satisfaz com a linguagem reverente que Deus exige. A pessoa não observa o dia do Senhor, porque não se satisfaz com seis dias para si. A pessoa desonra pai e mãe, por descontentamento. A pessoa mata por isso.  A pessoa comete adultério, porque não está satisfeito com seu cônjuge. A pessoa rouba por insatisfação. A pessoa mente por insatisfação. Mas mesmo que alguém diga que não cometeu nenhum destes pecados, o décimo mandamento nos denuncia e nos expõe.
São Basílio afirmou: A inveja é a dor que sentimos pelo sucesso do próximo. O invejoso sempre tem um motivo para tristeza e desânimo. A pior característica dessa dor, no entanto, é que quem a sente não pode revelá-la a ninguém.”
Max Bierbohn, na obra Zuleila Dobson afirma: A inveja odiosa que temos de pessoas brilhantes sempre é amenizada pela suspeita de que um dia eles vão se dar mal.”
A inveja nos ficar de tocaia esperando que a pessoa que está se dando bem, no fim se dê mal. Que o político seja pego com propina. Que o padre seja pego na pedofilia. Que o pastor seja pego em adultério.
A cobiça não é apenas desejar o que não temos. Cobiça é desejar o que o outro tem.
Thomas Watson – “desejo insaciável de possuir o mundo”.
Quando Satanás tentou a Eva, ele instigou o desejo de ser como Deus (Gn 3.6).
O Décimo Mandamento menciona a casam a mulher, o servo, a serva, o boi, o jumento e nem coisa alguma. Ele coloca os bens como aquilo que não se pode cobiçar, mas conclui, afirmando, “nem coisa alguma do teu próximo.” A proibição se torna extensiva a tudo. Todo desejo ilícito, portanto, é pecado.
II – O MAIS DEVASTADOR DOS PECADOS
PERGUNTA 81. O que proíbe o décimo mandamento?
R. O décimo mandamento proíbe todo o descontentamento com a nossa condição, todo o movimento de inveja ou pesar à vista da prosperidade do nosso próximo e todas as tendências ou afeições desordenadas a alguma coisa que lhe pertence.
1Tm 6.6-10 - De fato, grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento.
Tomás de Aquino – A inveja é o desgosto pelo bem alheio.
O caminho da inveja é a cobiça que mais do que sentir a dor de não ter o que o outro tem, é o desejo de ter pra si o que o outro tem. É este sentimento que é colocado no Décimo Mandamento.
Os outros mandamentos expõem pecados exteriores principalmente, mas o décimo é interior.
Michael Horton, conta uma conversa que teve com um rabino,que lhe disse: “Uma das maiores diferenças entre nossas religiões é essa ideia de pecar apenas desejando ou pensando. Caso contrário, estaríamos pecado o tempo todo.”
*Martinho Lutero: “Este último mandamento  não se destina aos patifes, mas precisamente aos mais retos, para as pessoas que desejam ser honradas como honestas e virtuosas, porque não infringiram os mandamentos anteriores.”
Este mandamento nos expõe, nos denuncia como denunciou um homem muito virtuoso chamado *Paulo – “Eu não conheci pecado senão pela lei; porque eu não conheceria concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás.” Rm 7.7
O mandamento que proíbe a cobiça é o que nos convence de que somos pecadores que precisam de um salvador.
Francis Schaeffer; “Não cobiçarás é o mandamento interno que mostra ao ser humano, que se julga um ser moral, que ele precisa de um salvador. É comum que tal homem moral, que vive se comparando com os outros e comparando-se com uma lista de regras bastante fáceis, sinta-se, como Paulo, que está se dando muito bem. Mas de repente, quando confrontado com o mandamento interior que ordena não cobiçar, ele é levado a ajoelhar-se.”
Somos insatisfeitos, somos materialistas e egoístas. Por isso invejamos e cobiçamos. Não ajudamos mais o próximo, não contribuímos mais com a igreja visível,porque somos insatisfeitos. Desejamos a mulher do próximo. Desejamos o carro, a casa, a vida, a felicidade, o conforto, a vida do próximo, por insatisfação pecaminosa.
Perguntaram a Nelson Rockefeller quanto dinheiro era necessário para ser feliz. A resposta dele foi: “um pouco mais, sempre um pouco mais.”
Um grande exemplo de inveja, insatisfação e cobiça é a história retratada no filme Amadeus, no caso Salieri e Mozart.
Numa peça chamada – O último ano de Mozart – uma frase é atribuída a Constanze Mozart: “ todos temos inimigos, mas ninguém foi mais incansável e continuamente atacado e injuriado pelos inimigos do que meu marido, apenas por ter talento.”
*O contentamento é a solução bíblica, o remédio para o desejo pecaminoso. O contentamento cristão não significa deixar de sonhar, de trabalhar para adquirir bens, lutar para proteger e multiplicar nossos bens – nada disso. *O contentamento cristão significa estar satisfeito com Deus. Satisfeito em Deus. Quem está satisfeito com Deus, buscará aquilo que é correto buscar e da forma correta.
A saída para este pecado é a confiança em nosso Senhor Jesus Cristo. Não é a riqueza e nem a pobreza. Mas a confiança na obra da cruz. Ele deve ser suficiente para nós. Com ele todas as coisas ganham significado. A cruz santifica nossa vida. A cruz redime nossa vida toda.

quarta-feira, 21 de março de 2018

Mandamento contra a Mentira - O Nono Mandamento

Pregado em 11 de Março de 2018 - Na Capela Missional / Porto Alegre
 
PERGUNTA 76. Qual é o nono mandamento?
R. O nono mandamento é: "Não dirás falso testemunho contra o teu próximo".Ex 20.16  

 


                                                 VERDADEIRAS MENTIRAS
Este mandamento protege o nome de uma pessoa, o valor da palavra de uma pessoa, o valor da reputação de uma pessoa e o valor da verdade.
 A mentira está na moda. Com a internet, é comum o que é chamado de Fake News. Até mesmo cristãos espalham noticias falsas sobre personalidades. Aqueles que pensam diferentes de nós são os maiores alvos. O que importa é desqualificar o adversário, desqualificando-o como pessoa. Deus ama a verdade e aqueles que o tem como Deus, deveriam ser amantes incondicionais da verdade. Amantes incondicionais daquilo que é verdadeiro. Este mandamento é um chamado à verdade.
1 – O SIGNIFICADO DO MANDAMENTO -  O nono mandamento é: "Não dirás falso testemunho contra o teu próximo".
O contexto imediato deste mandamento era sobre testemunhar contra alguém. Lembrando que o uso do termo ‘próximo” no Antigo Testamento, era alguém do povo da aliança. Jesus ampliou este significado, mostrando que “próximo é qualquer pessoa”. O primeiro significado deste mandamento é a condenação da testemunha mentirosa. No mundo antigo o sistema de justiça para punição de crimes era basicamente por meio de testemunhas. Por isso, o testemunho era levado muito a sério.
Não se poderia condenar uma pessoa por uma só testemunha, mas era necessário, pelo menos duas (Dt 19. 15ss, Nm 35.30). Quando por meio de testemunho uma pessoa era condenada à morte, o acusador deveria atirar a primeira pedra (Dt 17.7). Se o acusador fosse considerado falso, ele é que sofria a pena de quem ele acusou (Dt 19.18-19).
Logo este mandamento dava o direito à acusação, mas também garantia a justiça ao acusado. Deus proibiu que alguém fizesse acusação falsa. O falso testemunho era uma quebra da Lei de Deus.
Pv 14.5 - A testemunha verdadeira não mente, mas a falsa se desboca em mentiras.
2 – AS EXIGÊNCIAS DO MANDAMENTO
PERGUNTA 77. Que exige o nono mandamento?
R. O nono mandamento exige a conservação e promoção da verdade entre os homens, e a manutenção da nossa boa reputação, e a do nosso próximo, especialmente quando somos chamados a dar testemunho.
No Catecismo Maior, na Pergunta 99 – existem regras para a correta interpretação dos Mandamentos. Uma destas regras é a “regra das categorias” – onde cada mandamento também se aplica aos pecados menores do mesmo tipo.
No nono mandamento, então, está proibindo todas as formas de falsidade e mentiras contra alguém.
Uma outra regra é a “regra dos dois lados” – Para cada proibição dos mandamentos, há também as exigências. Se mentir é proibido, dizer a verdade é obrigatório.  O cristão precisa promover a verdade entra as pessoas. O cristão precisa promover a boa reputação das pessoas a qualquer custo, mesmo de quem não se gosta.  Não se pode ter uma opinião pública cristã de julgamentos de adversários. Somente o que é verdadeiro sobre as pessoas deve ser dito.
Ef 4.25 -  Por isso, deixando a mentira, fale cada um a verdade com o seu próximo, porque somos membros uns dos outros.
Mt 5.37 - Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não. O que disto passar vem do maligno.
 3 – AS PROIBIÇÕES DO MANDAMENTO
PERGUNTA 78. Que proíbe o nono mandamento?
R. O nono mandamento proíbe tudo o que é prejudicial à verdade, ou injurioso, tanto à nossa reputação como à do nosso próximo.
Jamais devemos falar aquilo que intencionalmente prejudica ou difama outra pessoa. Jamais devemos falar o que pode destruir outra pessoa, a vida, os relacionamentos, os negócios ou a reputação de outra pessoa. Nem mesmo o que é verdadeiro pode ser dito sempre. Não podemos mentir nunca, mas nem toda a verdade precisa ser dita.  Seria trágico se chegássemos à conclusão que a verdade deve ser dita em qualquer lugar, a qualquer hora e para qualquer pessoa.
Bonhoeffer: “O cínico, que apresenta fanatismo pela verdade, não tem consideração pelas fraquezas humanas e destrói a verdade viva entre as pessoas.”
 Tais pessoas são legalistas, e cultuam a verdade, mesmo que destrua pessoas simples e inocentes. Não podemos mentir, isso é certo. Mas não somos obrigados a falar verdades que destruirão outras pessoas. No caso de ladrões que entrem numa casa. Regimes e sistemas totalitários que impõe sua lei de entregar pessoas. O mandamento não prevê estes casos. A Bíblia não prevê estes casos. O mandamento protege a honra do nome do próximo.
Lutero: “Ninguém deve causar dano ao próximo com a língua, quer se trate de amigo, que de inimigo, nem deve falar mal dele, pouco importa se é verdade ou mentira, a menos que seja decorrência de mandato ou vise a melhorar. Cumpre, ao contrário, fazer uso da língua para falar o melhor a respeito de todos, encobrir seus pecados e fragilidades, escusá-los e os embelezar e velar com sua honra”.
Portanto, guardar no nono mandamento não significa dizer o lhe vier a mente. Tem horas que o melhor é não dizer nada. Mas tenha em mente isso, jamais acuse uma pessoa que não possa se defender. Jamais fale de uma pessoa, se ela não puder se defender. Jamais prejudique uma pessoa com palavras. Depois que uma notícia, um boato é dito, seus efeitos não podem mais serem cancelados.   
4 – AS IMPLICAÇÕES E APLICAÇÕES DO MANDAMENTO.
Catecismo de Heidelberg – p.112. O que Deus exige no nono mandamento? R. Jamais posso dar falso testemunho contra meu próximo, nem torcer suas palavras ou ser mexeriqueiro ou caluniador. Também não posso ajudar a condenar alguém levianamente, sem o ter ouvido. Mas devo evitar toda mentira e engano, obras próprias do diabo, para Deus não ficar aborrecido comigo. Em julgamentos e em qualquer outra ocasião, devo amar a verdade, falar a verdade e confessá-la francamente. Também devo defender e promover, tanto quanto puder, a honra e a boa reputação de meu próximo.”
Uma maneira de quebrar este mandamento é falar mal das pessoas na forma de fofocas. Quem faz fofoca está quebrando este mandamento de - não falar mal do próximo – e também o oitavo mandamento – de não furtar ou não roubar. Está roubando o bom nome da outra pessoa. Por isso, é errado fazer fofoca e é errado ouvir fofoca. Um rabino disse que “O falar mal prejudica três pessoas:
Prejudica quem fala mal.
Prejudica quem ouve.
Prejudica, principalmente de quem se está falando mal.”
Thomas Watson fez a seguinte afirmação “Aquele que fala mal de outro carrega o diabo na língua. Aquele que ouve carrega o diabo no ouvido.’
Portanto o que devemos fazer? Devemos proteger a honra do próximo. Não devemos torcer as palavras de ninguém, dizendo o que a pessoa não disse. Não devemos nos envolver em falatórios e conversas caluniosas. Não devemos condenar ninguém de forma leviana. Devemos sempre dar o benefício da dúvida ao próximo.  Devemos amar a verdade, falar a verdade sempre, mas proteger o irmão fraco sempre. Não podemos colaborar com a ruína de ninguém. Aquele empurrãozinho para o abismo que as pessoas dão.
Cl 3.9 - Não mintais uns aos outros, uma vez que vos despistes do velho homem com os seus feitos
O cristão deve zelar por não quebrar este mandamento. Jesus morreu na cruz para perdoar pecadores. Quem já transgrediu de alguma forma, e todos nós transgredimos este mandamento – encontra perdão na morte de Cristo na cruz.
O cristão é um revolucionário. Ele muda o mundo a seu redor com aquilo que aprende com Cristo.  Se a mentira, as fofocas, os Fake News, estão na moda, é a moda, o cristão é chamado a ser verdadeiro. Deus ama a verdade. Nosso Senhor Jesus Cristo é a verdade. Amemos a verdade, vivendo nela e vivendo ela em todos os nossos relacionamentos e em todo nosso procedimento.

terça-feira, 20 de março de 2018

Não Furtarás - O Oitavo Mandamento - Exposição do Breve Catecismo de Westminster


Pregado em 04 de Março de 2018 – Na Capela Missional/Porto Alegre
 
 
PERGUNTA 73. Qual é o oitavo mandamento?
R. O oitavo mandamento é: "Não furtarás".
Ex 20.15. 15 Não furtarás.
O QUE É DE DEUS, O QUE É MEU E O QUE É DO OUTRO.
Todo pecado é um roubo a Deus, inclusive o roubo.
Este mandamento é dirigido à preservação dos relacionamentos rompidos em decorrência de roubos. O furto, ou roubo é um desrespeito e uma violação aos direitos de indivíduos e da sociedade como um todo. O verbo é usado sem um objeto, colocando a proibição no contexto mais abrangente possível.
Em hebraico é – Lo-ganaf e o significado é muito amplo e engloba todo tipo de roubo, furto, pilhagem, tomar algo à força que não lhe pertence, pesos e medidas fraudulentos, suborno, usura, transações fraudulentas, calotes, infidelidade nos contratos entre pessoas, extorsão, enganar alguém em relação ao uso de algo que pertence a este alguém, etc, .
Catecismo de Heidelberg – Pegunta 110. O que Deus proíbe no oitavo mandamento?
R. Deus não somente proíbe o furto e o roubo que as autoridades castigam, mas também classifica como roubo todos os maus propósitos e as práticas maliciosas, através dos quais tentamos nos apropriar dos bens do próximo, seja por força, seja por aparência de direito, a saber: falsificação de peso, de medida, de mercadoria e de moeda, seja por juros exorbitantes ou por qualquer outro meio, proibido por Deus. Também proíbe toda avareza bem como todo abuso e desperdício de suas dádivas.
Este mandamento, portanto protegia tanto a liberdade, como a justiça nos relacionamentos e na convivência das pessoas.
Vejamos as implicações deste mandamento
1 – TUDO PERTECENCE A DEUS, TANTO O QUE É DO OUTRO, COMO O QUE É MEU.
Em primeiro lugar, tudo pertence a Deus, veja por exemplo o Salmo 24 – “Ao Senhor pertence a terra e tudo o que nela se contém, o mundo e os que nele habitam.” Roubar é pecado, porque Deus é Deus. Este mandamento, como os outros deve ser lido, analisado e praticado à luz do preâmbulo – “Eu sou o Senhor teu Deus.”
Tudo pertence a Deus e dentro desta pressuposição, roubar é um pecado contra Deus em primeiro lugar e uma violação ao direito do próximo dentro daquilo que Deus deu a ele.
PERGUNTA 74. Que exige o oitavo mandamento?
R. O oitavo mandamento exige que procuremos por todos os meios lícitos e justos preservar e aumentar a riqueza e o estado exterior, tanto nosso como do nosso próximo.
Roubar é um pecado contra Deus,  é uma afronta contra a providência de Deus. Primeiro, porque é uma falta de confiança em sua provisão. Guardar o oitavo mandamento também é um exercício de fé na providência de Deus. Roubar é pecado também porque se rouba aquilo Ele providenciou para outra pessoa.
2 – TUDO O QUE É MEU, É POR E PARA MORDOMIA.
Vamos observar também que dentro desta pressuposição, de que tudo é e Deus, então, ele é quem permite se ter coisas como propriedades. Também devemos observar, que se tudo pertence a Deus, o que temos é para ser usado como mordomia, ou seja, cuidamos o que pertence a Deus. Isso significa que não temos o direito ou a liberdade de usar as coisas ao bel prazer de usá-las, mas administrá-las  de acordo com as intenções do seu senhor. Tudo o que possuímos é propriedade de Deus.
Veja o que Calvino diz: "A custódia do jardim foi dada em incumbência a Adão para mostrar que possuímos as coisas que Deus entregou em nossas mãos, sob a condição de nos contentarmos com uso moderados delas e cuidarmos do que permanece. Que cada um de nós considere a si mesmo como um mordomo de Deus em todas as coisas que possuímos. Então, não nos conduziremos de forma dissoluta nem corrupta para abusarmos das coisas que Deus exige que sejam preservadas.”
3  – TUDO O QUE É DO OUTRO, NÃO É MEU.
PERGUNTA 75. Que proíbe o oitavo mandamento? R. O oitavo mandamento proíbe tudo o que impede ou pode impedir os meios lícitos e justos de preservar e aumentar a riqueza e o estado exterior, tanto nosso como do nosso próximo.
Sendo que tudo é de Deus, ele deu o direito à outra pessoa de possuir sua propriedade. Apenas algo que pertence à alguém pode ser roubado. Não temos o direito de tomar para nós o que Deus deu aos outros. Meus irmãos, desta maneira, de alguma maneira todos nós quebramos este mandamento. Os ricos roubam, os pobres roubam, o governo rouba. Há roubo no trabalho, de quem emprega e de quem é empregado, de várias maneiras isso acontece. Crentes podem quebrar este mandamento, por exemplo, achando que é espiritual, ao jejuar no trabalho, ao evangelizar, ao orar, ao ler a Bíblia ou bom livro – se isso diminuir a produtividade que de forma justa o seu empregador espera. O empregador rouba quando exige mais do que o necessário e paga menos. Ele rouba Quando não paga o que é justo ao trabalhador. O roubo do pobre é violação deste mandamento, pois suas necessidades devem ser supridas pelo trabalho ou ajuda lícita de alguém, de uma instituição ou até do governo.
O roubo dos ricos é violação deste mandamento. Veja o que Lutero falou sobre isso: “Longe de serem larápios e arrombadores de fechaduras por meio de chaves falsas para saquear cofres, eles sentam em cadeiras de escritório e são chamados de aristocratas e bons e honrosos cidadãos”.
Também Calvino afirma: “ são ladrões que secretamente roubam a propriedade dos outros e também que buscam ganho pela fama dos outros, acumulam riquezas por práticas ilícitas e são mais dedicados à vantagem particular do que ao que é justo.”
Calvino também afirma o seguinte: “Não esqueçam que todas as artimanhas pelas quais podemos adquirir os bens e dinheiro dos outros, quando tais mecanismos divergem do que é correto e visam o desejo de enganar ou de alguma maneira prejudicar, têm de ser considerados como roubo.”
4 – TUDO O QUE É BEM, DEVE TER SEU USO CORRETO PARA O FIM CORRETO.
Uso o termo “Bem” no sentido de posse, bem material, propriedade.
A mordomia indica que ser dono de algo, no mundo de Deus, não significa que podemos usar as coisas segundo nossos propósitos sem considerar os propósitos de Deus. Ao mesmo tempo  que somos proibidos de tomar coisas que não nos pertencem, somos também chamados a usar o que temos de modo que sejam agradáveis a Deus.
Segundo Jerry Bridges três atitudes básicas existem com relação as coisas:
A primeira diz: O que é seu é meu; vou pegar. Esta é a atitude do ladrão.
A segunda diz: O que é meu é meu, vou guardar. Apesar desta atitude ser por vezes correta, pode ser também uma atitude egoísta e por isso, pecaminosa.
A terceira diz: O que é meu é de Deus, vou compartilhar. Esta é atitude do mordomo de Deus. Deus nos deu o que temos. Deus nos deu além de bens, nos deu coisas mais importantes como a si mesmo. Veja Jesus na Cruz. É o dom maior de Deus. Como cristãos, somos chamados à generosidade. Não temos as coisas apenas para satisfazer a nós mesmos e nossas necessidades, mas também para prover a subsistência dos outros. Um dos princípios desta mordomia é dar, compartilhar o que Deus nos deu para outras pessoas tenham o que precisam.
Todos nós quebramos o oitavo mandamento ( não furtarás). Todos de alguma forma usamos algum bem ilicitamente. Todos temos o desejo de explorar. Os poderosos, só têm os meios para isso.
Catecismo de Heidelberg -  p. 111. Mas o que Deus ordena neste mandamento?  R. Devo promover tanto quanto possível, o bem do meu próximo e tratá-lo como quero que outros me tratem . Além disto, devo fazer fielmente meu trabalho para que possa ajudar ao necessitado.
Este é o mandamento e estas são as implicações e aplicações. É maravilhoso estudar os Dez Mandamentos, porque eles nos confrontam e apontam nossos pecados. Vemos que não existe um único mandamento que guardamos com toda a integridade. Vimos que somos culpados pela Lei. O Evangelho é a boa noticia que diz que Jesus morreu na cruz e ressuscitou para salvar aquele que crê. Jesus morreu na cruz para salvar pecadores.
Jesus foi crucificado entre dois ladrões, mas de acordo com a justiça de Deus, havia três ladrões crucificados, pois Cristo substituiu pecadores, inclusive transgressores do Oitavo Mandamento. Ele que não tinha pecado, foi feito pecado em nosso lugar. 

VIVER COM PACIÊNCIA, ESPERANÇA E PERSEVERANÇA – Romanos 8.18-25

  Pregado em 03 de maio de 2020 sexto sermão na Pademia                                                                                     ...